Autora: Suzymaire R. Susana
Artigo apresentado em Políticas Públicas em Educação no Curso de Especialização em Docência do Centro Educacional Sigma de Anápolis-GO, sob orientação da Professora: Leila Ribeiro.
RESUMO
Este estudo trata sobre o Perfil Anarquista da Educação no Brasil. Tem por objetivo principal descrever o movimento anarquista e suas conseqüências para a educação em nosso país. Para tanto, utilizou a metodologia de estudo descritivo com abordagem qualitativa dos dados e por meio da revisão da literatura que trata a temática, para assim, apresentar dados relevantes sobre a educação no Brasil, e todos os dados pertinentes ao tema. O estudo mostra que o anarquismo teve forte influencia para a formação da educação no Brasil. Concluiu-se que a escola deve ter a preocupação de exercer a capacidade de readaptação do educando as condições de vida e desenvolver seus aspectos intelectuais.
Palavras-chave: Educação no Brasil; Movimento Anarquista; Escola.
I – INTRODUÇÃO
Este estudo se limita a apresentar o perfil anarquista da educação com enfoque na obra de Sílvio Gallo, “A Pedagogia do Risco: experiências anarquistas em educação”, que trata sobre os princípios filosófico-políticos do Anarquismo como referencial para pensar a educação contemporânea.
Sílvio Gallo nasceu em Campinas em 1963. Professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Departamento de Filosofia e História da Educação). Graduado em Filosofia (PUC-Campinas, 1986); Mestre em Filosofia da Educação (UNICAMP, 1990); Doutor em Filosofia da Educação (UNICAMP, 1993).
Foi professor na Universidade Metodista de Piracicaba entre fevereiro de 1990 e fevereiro de 2005, onde exerceu os cargos de Chefe do Departamento de Filosofia (1995-1997); Coordenador do Curso de Filosofia (1997-1999 e 1999-2002) e Diretor da Faculdade de Filosofia, História e Letras (1999-2002).
Pesquisador do anarquismo e da pedagogia libertária, procura organizar sua prática docente universitária segundo estes referenciais. Publicou dezenas de artigos como resultado de suas pesquisas neste campo, além dos seguintes livros: Anarquismo: uma introdução filosófica e política. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000; Pedagogia do Risco – experiências anarquistas em educação. Campinas: Papirus, 1995; Educação Anarquista: um paradigma para hoje. Piracicaba: Ed. Unimep, 1995.
Desenvolve pesquisas na área de filosofia francesa contemporânea e suas interfaces com a educação, estudando autores como Deleuze e Foucault, além de dedicar-se a investigações concernentes ao ensino da filosofia.
Traçado o perfil do autor, passa-se a problemática estudada, a qual no decorrer do estudo se limita a responder os seguintes questionamentos: De que maneira foi inserido o movimento anarquista no Brasil? Que fatos e fatores marcaram a educação brasileira no que tange este movimento? A pedagogia anarquista influenciou a Escola tradicional e a Escola Nova? Educação integral como educação para a liberdade é uma questão social ou política?
Para tanto, o estudo utiliza a metodologia de revisão da literatura, com base na obra de Silvio Gallo, “A Pedagogia do Risco: experiências anarquistas em educação”, e demais autores que tratam o tema. Utilizou-se o método dedutivo com abordagem qualitativa conforme os ensinamentos de Bardin (2004).
O objetivo principal foi apresentar os fatos e fatores do Anarquismo que contribuíram para a formação da Educação no Brasil. Visa também, descrever o Anarquismo com enfoque na educação; relatar um breve histórico do conhecimento que envolveu a formação da educação brasileira.
II – O ANARQUISTA E A EDUCAÇÃO NO BRASIL
2.1 Aspectos importantes sobre o anarquismo
Historicamente, prevalece o tabu de que os defensores do anarquismo são agitadores, terroristas ou desordeiros. Esse preconceito prevalece até os dias atuais e é explicado devido aos ideais de liberdade e de luta contra o poder autoritário dos governantes.
Vale lembrar que, o Brasil, no final do período imperial necessitava substituir a mão-de-obra escrava, com isso incentivou políticas de imigração. Os imigrantes tinham por destino as lavouras de café, incentivo dado pela Lei de terras em 1850. Nesse contexto, os imigrantes se convertem em principal mão-de-obra da indústria rudimentar que trouxe consigo o ideário anarquista, sob cuja inspiração se procurou organizar os trabalhadores em sindicatos, associações de auxilio mutuo, com intuito de defender os interesses dos trabalhadores e realizar conquistas salariais, redução da jornada de trabalho e demais direitos ao longo do tempo (Saviani, 1991).
A palavra anarquismo vem do grego, de archon, que significa governante, somado ao prefixo na, que indica sem, ou seja, sem governante. Portanto, significa viver sem governo. No plano teórico tratam os anarquistas como aqueles que recusam a participação política e a luta pelo domínio do Estado, vias que apenas instaurariam outras relações de poder (Pettersen, 2001).
Ao lado dessa militância sindical houve preocupações educacionais, inclusive fundando escola, denominadas de escolas modernas, que tiveram inspiração nas concepções pedagógicas de Francisco Ferrer, conhecida como ensino racionalista, pois ensinava a introdução à concepção científica combatendo a influência religiosa na educação (Saviani, 1991).
O maior representante do anarquismo no Brasil foi Domingo Passos, natural do Rio de Janeiro, ajudou a fundar a União dos Operários em Construção Civil (UOCC), constituída como União Geral da Construção Civil (UGCC) em abril de 1917. Esse homem atravessou o Brasil de norte a sul, divulgando ideais anarquistas, na época foi reprimido e preso. Ganhou de seus contemporâneos a alcunha de “Bakunin Brasileiro”. Sofreu as conseqüências de sua dedicação à luta pela emancipação dos homens e mulheres, tornou-se a grande referência de militância libertária e social de seu tempo (Ramos; Samis, 2005).
Em meio a esse movimento nasce outro, o escolanovismo, que seria a versão educacional desse emprenho de integração da sociedade, de um lado elites para dirigir o país e de outro, a integração da população no seu conjunto, dos trabalhadores, a partir de uma educação pública comum a cargo do Estado, elementos ligados à esquerda tendem a aderir ao ideário escolanovista (Saviani, 1991).
O movimento da Escola Nova, inicialmente, pouco divulgado exercia experiências isoladas, em internatos situados no campo. Com isso, procurava que a educação estivesse misturada com a vida do aluno, ele realizava atividades como criação de animais, jardinagem, dentre outras, e todas planejadas para serem educativas. Incentivava a vida em grupo, propunha o ensino teórico ligado ao conhecimento prático da natureza e da vida social (Di Giorgi, 1992).
Rousseau (1983) já preconizava que a sociedade devia encontrar uma forma de estruturação que não suprimisse a liberdade natural, essa devia ser a função do contrato social, garantir a liberdade e, através dela, as demais prerrogativas humanas.
Para Pierre-Joseph Proudhon, anarquista Francês, um século depois de Rousseau, a liberdade é resultante de uma oposição de forças, uma força de afirmação, a necessidade, e uma força de negação, a espontaneidade. Quanto mais simples o ser vivo, mais rígido pela necessidade, quanto mais complexo, mais influenciado pela força da espontaneidade. Essa força atinge seu grau Maximo no ser humano, sob o nome de liberdade (Gallo, 1995).
A liberdade é entendida pelos socialistas libertários como um fato eminentemente social. O famoso Bakunin dizia: “a liberdade dos indivíduos não é um fato individual, é um fato, um produto coletivo. Nenhum homem pode ser livre fora e sem o concurso de toda a sociedade humana” (Ramos; Samis, 2005).
Em suma, o entendimento da liberdade foi fundamental para a compreensão das idéias e experiências que os anarquistas desenvolveram com educação, construindo uma pedagogia libertária essencialmente distinta da pedagogia liberal burguesa, embora ambas apresentem a liberdade da criança como aspecto central do processo educativo.
2.2 A Pedagogia libertária
A pedagogia e os sistemas educacionais foram construídos durante as décadas sob influência de várias vertentes. As classes antecedentes no sistema social sempre propuseram mudanças e transformações para que as instituições responsáveis pela educação possam beneficiar o processo educacional, veiculando a visão de mundo que lhes era própria.
Nesse sentido, a luta de classes está presente no processo educacional, tendo em vista que a classe dominante procura manter numa posição de supremacia no contexto das relações sociais de poder e dominação, enfraquecendo as ações revolucionarias dos menos favorecidos, para alargar brechas no sistema educativo, como meio de consolidar sua ascensão e posterior domínio (Gallo, 1995).
Na década de 60 ocorreu uma polarização de forças, de tal modo que as diferentes frações da burguesia se uniram em defesa de seus interesses com respaldo das camadas médias. As forças de esquerda, defendiam essa via de nacionalização do modelo econômico. Ressalta-se que nesse período a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB – estava sendo elaborada. No regime do Estado-Novo, mantinha-se a orientação autoritária, centralizadora e dominante do Estado. Os movimentos se contrapunham entre a escola pública e a escola particular, as esquerdas tiveram presentes participando do movimento em defesa da escola pública de caráter liberal (Saviani, 1991).
O projeto anarquista, coerente com a idéia de que o proletariado deve conquistar ele próprio a sua liberdade, com princípio proudhoniano de que a emancipação dos trabalhadores devia ser obra deles mesmos, criticando implacavelmente a perspectiva ideológica de reprodução social de educação oferecida pela burguesia na qualidade de classe dominante. Desenvolveu por meio da idéia de que os trabalhadores deviam criar sua própria escola, trabalhando a educação com uma orientação oposta aquela encontrada nas escolas estatais ou religiosas (Gallo, 1995).
Assim, os anarquistas acerca da educação, de um lado criticam o sistema de ensino praticado no capitalismo, e, de outro, discuti novas bases e objetivos libertários para a educação.
2.3 Crítica a realidade opressora
As contradições e a luta por uma educação libertadora da opressão do Estado, do capitalismo e das imposições religiosas leva ao questionamento: qual seria o espaço e o objetivo da educação?
Para Proudhon a educação tem a função de produzir o homem como uma representação das relações sociais. Ela é definida como a transmissão da carga cultural da humanidade, é um dos seus pontos centrais de existência. Sem educação não existe transmissão da cultura, não haverá avanço, e pode provocar a desestruturação da sociedade em direção à barbárie. O teórico defende a idéia de que a educação necessita de uma sociedade mais justa, e não compreende como um sociedade fundada na liberdade, na justiça e na igualdade pode ser contraria as bases de seu próprio sistema, por meio da dominação e exploração. O capitalismo nunca educará o povo apenas garante essa dominação (Gallo, 1995).
Dubet (2008) defende a igualdade de oportunidades preconizada por Proudhon. Afirma Dubet que nenhum sistema conseguiu proteger as desigualdades sociais, contudo, a equidade, pode oferecer oportunidade aos mais fracos ou menos favorecidos. Para que a escola do filho das classes menos favorecidas ofereça as mesmas oportunidades da escola do filho do burguês. É o que denomina de escola justa e/ou escola de oportunidades. Nesse contexto, a liberdade estaria centrada na idéia de que cada um seria responsável por sua aprendizagem, tendo em vista, que as oportunidades seriam iguais a todos.
Disso pode-se concluir que, se por um lado a escola libertária contra-ideológica precisa agir ativamente sobre os alunos, essa ação não pode dar-se mediada pela disseminação de uma ideologia libertária, que serviria de referencial para um processo de subjetivação que não seria, assim, autônomo.
Outrossim, a construção de um processo educativo que possibilitasse aos indivíduos a construção autônoma de sua subjetividade, resultando em pessoas singulares, seria um empreendimento verdadeiramente revolucionário, um golpe contra a sociedade de dominação que, articulada numa máquina por demais complexa e bem azeitada, vem fazendo de nós parte de suas engrenagens há milhares e milhares de anos (Soares, 2006).
III – CONCLUSÃO
O liberalismo foi um sistema de crenças e convicções, ou seja, uma ideologia, formada por princípios, que desenvolveram uma teoria e nessas idéias se fundamentaram. Preconizava o indivíduo enquanto sujeito de devia ser respeitado por suas aptidões e talentos, que seriam aperfeiçoadas pela educação e pela cultura.
A única lei era a natureza de cada indivíduo, o qual punha em execução por sua conta própria a fim defender a liberdade e outros direitos naturais. A função social da autoridade do governo seria a de permitir que cada pessoa fosse capaz de desenvolver seus talentos.
Assim, a escola deve ter a preocupação de exercer a capacidade de readaptação do educando as condições de vida e desenvolver seus aspectos intelectuais. Assim, poderia permitir que o trabalhador pudesse ver na escola outras perspectivas e a descoberta dos elementos culturais, dos deveres sociais, do senso comum.
Por fim, a escola deve assumir a tarefa de reconstrução social, por meio de uma escola pública, obrigatória e gratuita, sendo mais justa e oferecendo oportunidades iguais a todos os cidadãos.
E competente seria o professor que, sentindo-se politicamente comprometido com seu aluno, conhece e utiliza adequadamente os recursos capazes de lhes proporcionar uma aprendizagem real e plena de sentido, fazendo do aluno um cidadão critico e bem-informado, em condições de compreender e atuar no mundo em que vive.
IV - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DI GIORGI, Cristiano. Escola Nova. São Paulo: Ática, 1992.
DUBET, François. O que é uma escola justa? A escola das oportunidades. São Paulo: Cortez, 2008.
GALLO, Sílvio. Pedagogia do risco: experiências anarquistas em educação. Campinas-SP: Papirus, 1995.
PETTERSEN, Silvia Regina Ferraz. “Que a União Operária seja nossa Pátria”: história das lutas dos operários gaúchos para construir suas organizações. Santa Maria: Editora UFSM; Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2001.
RAMOS, Renato; SAMIS, Alexandre. Domingos Passos: o “Bakunin brasileiro”. Rio de Janeiro. FARJ, 10. mar. 2005. Disponível em: <
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou Da Educação, São Paulo: Difel, 1968.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Textos escolhidos, 3 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Os Pensadores).
SAVIANI, Demerval. Educação e questões da atualidade. São Paulo: Cortez, 1991. (Coleção Hoje e Amanhã).
SOARES, Donizete. Anarquismo e a pedagogia libertária. Revista Margem Esquerda. Set., 2006. Disponível em:
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